O erro que todos nós fingimos não ver

“É impossível escapar à impressão de que os seres humanos geralmente empregam critérios equivocados…” — escreve Sigmund Freud em O Mal-Estar na Civilização.

E o curioso é que, quase um século depois, a frase não envelheceu um dia.

Pelo contrário, parece ter ficado mais verdadeira.

Vivemos em uma época que fala o tempo todo sobre saúde mental, mas continua organizando a vida em torno de sucesso, produtividade e reconhecimento. As pessoas dizem que querem paz, mas se movem como se quisessem aplauso. Dizem que querem descanso, mas não suportam a ideia de não estar produzindo nada.

Não se trata de hipocrisia simples.
Seria fácil demais.

A psicanálise aponta para algo mais desconfortável: nós realmente acreditamos nesses critérios. Não é só aparência. Há um investimento libidinal real nisso. O sujeito deseja aquilo que, ao mesmo tempo, o esgota.

É aí que a coisa começa a ficar interessante.

Freud não está apenas criticando a sociedade, como se estivesse fora dela. Ele está apontando uma estrutura: o ser humano se orienta por ideais que não necessariamente o satisfazem — e, ainda assim, não consegue abandoná-los.

Por quê?

Porque esses ideais não são escolhidos livremente.

Eles são herdados, introjetados, incorporados como se fossem nossos. O sujeito cresce tentando corresponder a uma imagem de valor que, no fundo, nunca foi construída por ele. E quanto mais ele tenta alcançar isso, mais se distancia de qualquer possibilidade de satisfação real.

Isso explica uma cena bastante comum:
a pessoa chega exatamente onde queria — ou onde achava que queria — e, ainda assim, algo não fecha.

Falta alguma coisa.

E não é pouca coisa.

A tendência imediata é pensar que ainda não foi suficiente. Que falta mais dinheiro, mais reconhecimento, mais validação. Então o sujeito insiste. Acelera. Se cobra mais. Se compara mais.

E se afasta ainda mais.

A questão que Freud levanta, e que continua sendo evitada, é outra:
e se o problema não for a falta, mas o critério?

E se aquilo que está organizando o seu desejo já estiver, desde o início, deslocado?

Isso é difícil de admitir porque desmonta uma fantasia bastante confortável: a de que estamos no controle daquilo que queremos.

Não estamos.

Na clínica, isso aparece o tempo todo. Pessoas extremamente competentes, bem-sucedidas, organizadas — e profundamente angustiadas. Não porque deram errado, mas porque deram “certo” demais em algo que não as sustenta.

E aí surge um ponto decisivo.

A psicanálise não vem oferecer novos valores mais “corretos”, nem um manual de como viver melhor. Isso seria só trocar um ideal por outro.

O que ela propõe é mais radical: colocar em questão o próprio modo como você passou a desejar.

Isso implica perder algumas certezas.
Abrir mão de algumas identificações.
E, principalmente, suportar não saber imediatamente o que colocar no lugar.

Não é confortável.

Mas talvez seja a única forma de escapar — ao menos um pouco — desses critérios equivocados que Freud já denunciava lá atrás.

E que, ao que tudo indica, seguimos obedecendo com uma precisão quase impecável.

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