A VOZ INVOCANTE DA MÃE

Neste ensaio, Aline Dainez e Beethoven Hortencio exploram a musicalidade originária da linguagem e o papel fundamental da prosódia na constituição do sujeito. A partir da psicanálise lacaniana, o texto percorre o caminho que vai da voz materna — esse primeiro chamado que não comunica significados, mas afeta — até a emergência do sujeito como efeito entre significantes. A reflexão atravessa experiências clínicas, referências teóricas e até cenas cotidianas, como o modo particular como uma criança conjuga um verbo. A voz, entendida aqui como objeto perdido e ao mesmo tempo insistente, é interrogada em seu estatuto paradoxal: aquilo que escapa, que não tem corpo nem intenção, mas que convoca e produz efeitos. Com base em Freud, Lacan, Safatle e autoras contemporâneas, este texto convida o leitor a pensar a linguagem não como instrumento de comunicação, mas como campo pulsional, onde algo da ordem do enigma permanece. O leitor é levado a refletir sobre como somos tocados pela voz antes mesmo de nascermos — e sobre como esse resto, que chamamos prosódia, atravessa toda a experiência de ser sujeito. Uma leitura densa, viva e profundamente afetada pela delicadeza da clínica e pela força da teoria.

Aline Dainez, Beethoven Hortencio

11/19/20255 min read

Para nos acomodarmos à língua materna há uma musicalidade que é perdida de certa forma, porque apenas uma parte dela se mantém. Aquilo que disso permanece, nós chamamos de prosódia. Assim, como uma sinfonia complexa, ela se desdobra em diferentes elementos: o tom que colore a voz, a intensidade que marca o acento, a duração que define o ritmo. São esses elementos que conferem às palavras sua melodia única, sua cadência peculiar. Todavia, ela não porta uma consciência, não é algo intencionalmente marcado, mas sim suposto no campo de uma alteridade, assim como o sujeito, que também é aí suposto.

O bebê, já no útero, reage não ao significado do que a mãe diz, mas à sua prosódia, sua voz colorida. Dizemos que nossa voz muda quando falamos com os bebês, é uma voz particularmente dirigida e carregadinha de picos prosódicos. Mas a voz também é o primeiro objeto perdido quando entramos no campo dos significantes, no campo da linguagem. Há uma peculiaridade nessa voz desde sempre perdida, já que aquilo que reconheço, o que efetivamente escuto como minha própria voz, é inexistente. Há uma cisão da nossa voz. A voz que os outros escutam é a voz que emitimos. Já a nossa própria voz é uma amálgama daquela que projetamos e a que reverbera em nossa cavidade craniana. Ela é uma voz encorpada. Uma voz dentro-fora, êxtima, ex-sistente. É uma voz invocativa que se perde no momento do nascimento, também inalcançável, inexistente. A prosódia é o resquício disso, dessa perda.

Trago um exemplo. Helena, minha filha de quatro anos, conjugava o verbo irregular ir, no pretérito perfeito, como iu. Ela dizia “ela iu” em vez de “ela foi”. Na língua portuguesa, todos os verbos regulares terminados em ir, como por exemplo, parir, fugir, abrir, sair, cair etc., têm sua terminação alterada para iu quando conjugados na terceira pessoa do singular do pretérito perfeito: pariu, fugiu, abriu, saiu, caiu. Helena está determinada pela prosódia regular da fala, algo que ela escuta muito antes de conhecer as palavras no canto junto com sua mãe.

Desde os primeiros momentos da vida, é a melodia da linguagem que envolve a criança, marcando-a com entoações. Em correspondência à prosódia do cuidador, o bebê constitui sua lalação, isto é, quando ele emite uma série de sons, experimentando suas carnes, suas ondas e suas percepções: “O sujeito se constitui entre o couro e a carne, o lugar do Outro está no intervalo entre a percepção e a consciência.”. Esta é a prosódia sem sentido, primordial. É nesse contexto que a mãe – que aqui pode ser tomada como a pessoa que cuida e não necessariamente a que gestou –, faz um recorte da voz da criança, identificando significantes em suas vocalizações sem sentido. Um simples “mam” pode ser reconhecido como mãe, dando o primeiro indício de um sujeito além da mãe, uma criança que expressa algo em resposta a Outro, dirigido a alguém.

Em outras palavras, quando a mãe recorta dessa fala sem sentido um significante (mam) e o opõe a outro significante (mãe), ela supõe ali um sujeito (entre os dois significantes): há um subjectum que não é a mãe e que disse alguma coisa, uma palavra que ela reconheceu como compondo um leque de palavras previamente conhecidas. Essa suposição é o que constitui o sujeito ou ainda, é o próprio sujeito: “[...] para o discurso analítico, o sujeito é uma função. Não uma substância. Em consequência, a pergunta que lhe convém não é ‘quem ele é’, e sim ‘no que ele’ se encarna, ou também ‘onde e como’ ele se materializa. Acontece que esse modo de argumentar equivale a uma abolição radical de toda e qualquer referência personalista.”.

Portanto, o sujeito aqui não é pessoa, ele é este que comparece no efeito significante, sem substância, e que não está numa relação intersubjetiva, de sujeito a sujeito, mas entre os significantes. Ainda, quando estamos numa relação com um outro semelhante, ela não se dá “[...] entre representações globais de pessoas, mas entre objetos que circulam entre corpos. ‘Objeto’ está aqui no sentido daquilo que ‘objeta’, que está ‘diante de’ como algo irreflexivo.”, um objeto outro, objeto autre, objeto a. Um objeto subjetivado, que se furta e que produz novos representantes, que não corresponde ao que é esperado e que colide com outros, um objeto fugidio. Safatle diz que não temos relações com pessoas, “temos relações com olhares, com traços de caráter, com sons e gemidos, com partes de corpos que nos remetem a uma história de conexões entre momentos, experiências, lugares.”. Colocar-se no lugar de objeto produz um efeito que pode ser interessante, pois ao invés de convocar o outro a produzir um saber sobre ele, o sujeito é levado a trabalhar para produzir os representantes da sua submissão, isso faz com que ele se retire da fixidez de um lugar, que ele realize um movimento.

À primeira vista, ocupar o lugar de objeto pode soar como algo que estaria a favor do apagamento do sujeito, mas, tendo a psicanálise como horizonte, vamos brincar com as palavras. Safatle pontua que falar em objeto “[...] parece alguma forma de degradação das ‘pessoas’ envolvidas, de instrumentalização do outro, de ‘fetichismo’. Como se só houvesse força de ação e decisão em ‘pessoas’, não em ‘objetos’. Toda uma concepção jurídico-metafísica de atividade acaba assim por colonizar até mesmo a maneira de compreendermos afetos e afecções. Há também um fetichismo da pessoa, do qual deveríamos saber nos livrar.”.

Os objetos me mostraram que há um objeto que sempre toma a dianteira. Assim como um olhar em relação ao que ele vê, como ele é visto. “Em nossa relação às coisas, tal como constituída pela via da visão e ordenada nas figuras da representação, algo escorrega, passa, se transmite, de piso para piso, para ser sempre nisso em certo grau elidido – é isso que se chama o olhar.”. O que esse objeto elidido do olhar carrega como enigma é: qual seria o sujeito desse olhar? É como se não fosse preciso dizer nada para saber o que o olhar significa, o que é ilusão, como se o olhar falasse. É suposto um sujeito onde não há, pois sua produção, aparelhada pela linguagem, resta como uma substância insignificantizável. O olhar é o incognoscível produzido como efeito da relação significante, que não é apreensível; é o que cai da cadeia, resto do processo de significação, isto é, o objeto a.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CABAS, Antonio Godino. O sujeito na psicanálise de Freud a Lacan: da questão do sujeito ao sujeito em questão. 2a ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010

COSTA, Aline Dainez da. Agar, serva de Sarai, de onde vens e para onde vais?: o mito do apagamento do nome das mulheres da história. 2024. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2024. Disponível em: <https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8133/tde-10102024-164148/>.

FERREIRA, Leticia Maria Soares; CHATELARD, Daniela Scheinkman. O sujeito e a musicalidade da fala. Analytica, São João del Rei, v. 8, n. 14, p. 1-10, jun. 2019. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2316-51972019000100004&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 04 fev. 2024.

HARPER, Douglas. Etymonline - Online Etymology Dictionary. Disponível em: <https://www.etymonline.com/>.

LACAN, Jacques. (1964). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Texto estabelecido por Jacques Allain-Miller. Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p. 76.

LAZNIK, Marie Christine, MAESTRO, Sandra, MURATORI, Filippo, PARLATO, Erica. Interações sonoras entre bebês que se tornaram autistas e seus pais.. In: Colóquio Franco-Brasileiro sobre a Clínica com Bebês, 1., 2005, Paris. Anais eletrônicos. Disponível em: <http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=MSC0000000072005000100004&lng=pt&nrm=abn>.

SAFATLE, Vladimir. Alfabeto das Colisões: filosofia prática em modo crônico. São Paulo: UBU Editora, 2024.